“Devemos manter um silêncio fentro da alma para oucir o outro sem ter logo um palpite melhor para dizer. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante da nossa arrogância e vaidade.”

:: Rubem Alves

“Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.”

:: Ludwig Wittegenstein

“Neste mundo que nos açoita de incertezas, necessitamos regressar às nossas humanessências. Já tive medo de não reencontrá-las em mim.”

:: Mia Couto ::

Conselho

“Minha avó uma vez me deu uma dica:
Em tempos difíceis, você avança em pequenos passos.
Faça o que você tem que fazer, mas pouco a pouco.
Não pense no futuro ou no que pode acontecer amanhã.
Lave os pratos. Tire o pó.
Escreva uma carta.
Faça uma sopa.
Entende?
Você está avançando passo a passo.
Dê um passo e pare.
Descanse um pouco.
Elogie-se. Dê outro passo.
Então outro.
Você não notará, mas seus passos crescerão cada vez mais.
E chegará o momento em que você poderá pensar no futuro sem chorar.

Elena Mikhalkova

“E tudo que era efêmero se desfez, e ficastes só tu, que é eterno.”

:: Cecília Meirelles  ::

Renova-te

:: Cecilia Meireles ::

Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro. Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

“Deixe tudo acontecer a você: beleza e terror. Apenas continue. Nenhum sentimento é final.”

:: Rilke ::, no poema Go to the Limits of Your Longing

Paraíso ou Inferno

Um homem santo teve um dia para conversar com Deus e lhe disse:

“Senhor, eu gostaria de saber como são o Céu e o Inferno”

Deus então levou o homem santo a duas portas.

Ele abriu uma e o deixou olhar para dentro.

Havia uma grande mesa redonda.

No centro da mesa havia um enorme recipiente contendo comida deliciosamente temperada e perfumada.

O homem santo ficou com água na boca.

As pessoas sentadas ao redor da mesa, eram magras, pálidas e doentes.

Todos pareciam com fome.

Eles tinham colheres com cabos longos, presas ao braço.

Todos alcançavam o prato de comida e podiam pegar um pouco, mas como o cabo da colher era mais comprido que o braço, não podiam levar a comida até a boca.

O homem santo tremeu ao ver a miséria e o sofrimento deles.

Deus disse: “Você acabou de ver o inferno”.

Deus e o homem se dirigiram em direção à segunda porta.

Deus a abriu.

A cena que o homem viu era idêntica à anterior.

Havia a grande mesa redonda e o recipiente que fez dar água na boca.

As pessoas ao redor da mesa também tinham colheres com cabos longos.

Desta vez, no entanto, eles estavam bem alimentados, felizes e conversando uns com os outros, sorrindo.

O homem santo disse a Deus: “Eu não entendo!”

É simples, respondeu Deus, eles aprenderam que o cabo da colher não permite que você se alimente … mas permite que você alimente seu vizinho.

Então eles aprenderam a alimentar uns aos outros!

Aqueles na outra mesa, por outro lado, só pensam em si mesmos …

Inferno e Paraíso são os mesmos em estrutura …

Nós trazemos a diferença dentro de nós !!!

Na terra há o suficiente para satisfazer as necessidades de todos, mas só teremos para nós se soubermos dar ao próximo.

Do Livro Vermelho

C.G. Jung

– Capitão, o menino está preocupado e muito inquieto devido à quarentena que o porto nos impôs.
– O que te inquieta, menino? Não tens comida suficiente? Não dormes o suficiente?
– Não é isso, Capitão. É que não suporto não poder ir à terra e abraçar minha família.
– E se te deixassem sair do navio e estivesses contaminado, suportarias a culpa de infectar alguém que não tem condições de aguentar a doença?
– Não me perdoaria nunca, mas para mim inventaram essa peste.
– Pode ser, mas e se não foi inventada?
– Entendo o que queres dizer, mas me sinto privado da minha liberdade, Capitão, me privaram de algo.
– E tu te privas ainda mais de algo.
– Está de brincadeira, comigo?
– De forma alguma. Se te privas de algo sem responder de maneira adequada, terás perdido.
– Então quer dizer, segundo me dizes, que se me tiram algo, para vencer eu devo privar-me de mais alguma coisa por mim mesmo?
– Exatamente. Eu fiz quarentena há 7 anos atrás.
– E o que foi que tiveste de te privar?
– Eu tinha que esperar mais de 20 dias dentro do barco. Havia meses em que eu ansiava por chegar ao porto e desfrutar da primavera em terra. Houve uma epidemia. No Porto Abril nos proibiram de descer. Os primeiras dias foram duros. Me sentia como vocês. Logo comecei a confrontar aquelas imposições utilizando a lógica. Sabia que depois de 21 dias deste comportamento se cria um hábito, e em vez de me lamentar e criar hábitos desastrosos, comecei a comportar-me de maneira diferente de todos os demais. Comecei com o alimento. Me impus comer a metade do quanto comia habitualmente. Depois comecei a selecionar os alimentos de mais fácil digestão, para não sobrecarregar o corpo. Passei a me nutrir de alimentos que, por tradição histórica, haviam mantido o homem com saúde.
O passo seguinte foi unir a isso uma depuração de pensamentos pouco saudáveis e ter cada vez mais pensamentos elevados e nobres. Me impus ler ao menos uma página a cada dia de um argumento que não conhecia. Me impus fazer exercícios sobre a ponte do barco. Um velho hindu me havia dito anos antes, que o corpo se potencializava ao reter o alento. Me impus fazer profundas respirações completas a cada manhã. Creio que meus pulmões nunca haviam chegado a tamanha capacidade e força. A parte da tarde era a hora das orações, a hora de agradecer a uma entidade qualquer por não me haver dado, como destino, privações graves durante toda minha vida.
O hindu me havia aconselhado também a criar o hábito de imaginar a luz entrando em mim e me tornando mais forte. Podia funcionar também para as pessoas queridas que estavam distantes e, assim, integrei também esta prática na minha rotina diária dentro do barco.
Em vez de pensar em tudo que não podia fazer, pensava no que faria uma vez chegado à terra firme. Visualizava as cenas de cada dia, as vivia intensamente e gozava da espera. Tudo o que podemos obter em seguida não é interessante. Nunca. A espera serve para sublimar o desejo e torná-lo mais poderoso. Eu me privei de alimentos suculentos, de garrafas de rum e outras delícias. Me havia privado de jogar baralho, de dormir muito, de praticar o ócio, de pensar apenas no que me privaram.
– Como acabou, Capitão?
– Eu adquiri todos aqueles hábitos novos. Me deixaram baixar do barco muito tempo depois do previsto.
– Privaram vocês da primavera, então?
– Sim, naquele ano me privaram da primavera, e de muitas coisas mais, mas eu, mesmo assim, floresci, levei a primavera dentro de mim, e ninguém nunca mais pode tirá-la de mim.

Ocean

::Rumi::

“You are not a drop in the ocean
You are the entire ocean in a drop”

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