Dente-de-leão

“Penso em guardar a semente de dente-de-leão para brincar mais tarde. Procuro uma caixa onde possa conservá-la intacta. Meto-a numa embalagem de cartão da Zambézia, já vazia. Não gosto que me fechem em caixas, e a mamã ensinou-me que não devemos fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós. Tenho a certeza de que seríamos muito mais felizes se pudéssemos voar ou ser arrastados pelo vento. Volto a abrir a caixa do chá, levo-a até a janela e sopro-a para o infinito.”

Livro A Gorda, Isabela Figueiredo

Anúncios

A água

:: Margaret Atwood ::

“A água não resiste. A água flui. Quando você coloca as mãos na água ela te acaricia. A água não é uma parede sólida que te impede de seguir. Mas a água sempre vai onde quer ir e nada pode impedi-la. A água é paciente. Uma água pingando corrói pedra, lembre-se disso, minha criança. Lembre-se que você é metade água. Se não consegue ultrapassar um obstáculo, de a volta nele. Como a água.”

Knowledge and belief

:: Krishnamurti ::

“Knowledge and belief are essentially separating qualities. Beliefs never bind people; they always separate people; when action is based on belief or an idea or an ideal, such an action must inevitably be isolated, fragmented. Is it possible to act without the process of thought, thought being a process of time, a process of calculation, a process of self-protection, a process of belief, denial, condemnation, justification?”

The Book of Life, February 17, HarperSanFrancisco, 1995

Deus

:: Hafis ::, poeta sufi
 
Aprendi tanto com Deus
Que não posso mais chamar-me
Cristão, Hindu, Muçulmano, Budista ou Judeu.
A Verdade partilhou tanto comigo sobre Ela mesma
Que não posso mais chamar-me
Homem, mulher, anjo ou mesmo alma pura.
O Amor uniu-se a mim tão completamente
Que reduziu a cinzas e libertou-me
De todos os conceitos e imagens
Que a minha mente alguma vez conheceu.

Fracassar

Hilda Hilst #flip2018

“O caderno rosa é apenas resíduo de um Potlatch./ e hoje, repetindo Bateille:/ Sinto-me livre para fracassar.”

Acolher a possibilidade do fracasso se apresentava, portanto, como condição para o exercício da liberdade.

“Fracassar é transgredir” Bateille

Felicidade

Só é possível viver plenamente
esse sentimento no ventre materno

22.ju.2018

IlustraçãoLíbero/Folhapress

 

Felicidade é pássaro irrequieto concebido para a liberdade. Mal pousa em nosso espírito, já bate as asas. Contra todas as evidências, no entanto, vivemos na ilusão de um dia aprisioná-lo.

Felicidade plena, mesmo, só no conforto protegido do ventre materno. Lá, a sobrevivência está à mercê exclusiva da fisiologia, não há encruzilhadas, armadilhas nem espaço para dúvidas que nos levem à angústia das escolhas.

A plenitude chega ao fim em nove meses. Os religiosos que me perdoem, mas o paraíso com serpentes e frutos proibidos do qual Adão e Eva foram expulsos por graça do pecado original é um mundo inóspito se comparado aos ditames da vida intrauterina.

Para destruir a convivência idílica com o organismo materno, são necessárias contrações uterinas tão brutais que chegamos à luz aos berros, prenúncio do que está por vir.

Na infância, a felicidade faz visitas mais demoradas. É a única fase em que conseguimos acordar, passar o dia inteiro e ir para a cama felizes, por dias consecutivos. A primeira, da qual tenho lembrança, aconteceu aos sete anos.

Nasci num bairro cinzento em que o apito das fábricas marcava a rotina das famílias. Para avistar uma árvore era preciso andar até o largo na frente da igreja de Santo Antônio, a vários quarteirões de distância.

Naquelas férias de janeiro, meus tios levaram meu irmão e eu para uma fazenda a muitas horas de São Paulo, na companhia de seis primos com idades próximas às nossas. Pela primeira vez montei num cavalo, nadei em riacho, senti nos ombros o impacto de uma cachoeira, chupei manga trepado na árvore e joguei bola num gramado.

À noite, deitávamos em colchões de palha de milho espalhados pelo chão, com o cheiro de couro dos arreios pendurados na parede. Nunca esqueci do som da palha que estalava ao menor movimento dos nossos corpos nem do esforço para não pegar no sono no meio das conversas sobre as aventuras que viriam na manhã seguinte, com os primos queridos. Fiquei com a sensação de que foram três semanas de felicidade ininterrupta.

Como as memórias carregadas de emoção ficam impregnadas nas profundezas da consciência, tendemos a esquecer de experiências que trouxeram prazer, para dar prioridade às que nos fizeram sofrer. Lembro de detalhes do dia da morte de minha mãe com mais nitidez do que da viagem a trabalho que fiz ao Acre, três semanas atrás.

Com o passar do tempo, a tristeza atribuída a perdas como essa pode se tornar desproporcional à sentida por ocasião do acontecido. Aos quatro anos, acho que nem fiquei triste, apenas surpreso com a reação dramática dos mais velhos. Só depois viria a compreender que morte é a ausência definitiva. A impressão de que aquele dia talvez tenha sido um dos mais infelizes veio bem mais tarde, fruto da reflexão racional sobre o significado da perda da mãe na primeira infância.

Na vida adulta, a felicidade costuma nos visitar em situações que veem ao encontro de expectativas íntimas. A duração da visita dependerá da intensidade do desejo, do esforço para atingir aquele objetivo, do valor dado a ele e da ansiedade com que aguardávamos o desfecho.

Na maioria das vezes, entretanto, nem guarda relação com o mundo real, ocasiões em que não passa de um lampejo trazido à tona por uma lembrança agradável, uma música, uma fantasia ou até por um sonho que sabemos impossível.

É a busca incessante pelo prazer intenso, que faz o sucesso das drogas psicoativas. O álcool, o baseado, a carreira de cocaína têm o dom de nos resgatar das tarefas repetitivas, das frustrações e dos contratempos comezinhos que nos infernizam, para nos transportar ao paraíso em segundos. Na cadeia, conheci uma moça que comparou o efeito do crack a cem orgasmos simultâneos. Imagine você, leitora, que fica radiante quando consegue um.

Nos adultos, a felicidade chega em ondas de cristas à meia altura, contidas pelo entulho das contradições mesquinhas do cotidiano. Explosões que levam às fronteiras com a loucura, só conhecem os que vivem uma paixão amorosa ou situações excepcionais como a do nascimento de um filho, de uma neta ou a do jogador que faz o gol da vitória na final do campeonato.

A maturidade, no entanto, não me fez desistir de correr atrás da felicidade suprema, embora saiba que ela será episódica e fugaz, fatalmente turvada por pensamentos invasores e pela maldita insatisfação humana, até acabar confinada ao quarto de despejo do subconsciente.

Drauzio Varella

Médico cancerologista, autor de “Estação Carandiru”.

“Seguimos desobedientes pelo nosso não-caminho. Não seguimos as pegadas ou os córregos que formam açudes. Seguimos como redemoinhos de água no rio sempre a correr.”

Rebeldes Criativos – Marcelo Maceo

 

Previous Older Entries