Parabéns, atingimos a burrice máxima

ELIANE BRUM 12 NOV 2015 – 18:30 BRST

A “baranga” Simone de Beauvoir e a importância de um livro que ensina a conversar com fascistas

A fogueira de Simone de Beauvoir a partir da questão do ENEM mostrou que a burrice se tornou um problema estrutural do Brasil. Se não for enfrentada, não há chance. Hordas e hordas de burros que ocupam espaços institucionais, burros que ocupam bancadas de TV, burros pagos por dinheiro público, burros pagos por dinheiro privado, burros em lugares privilegiados, atacaram a filósofa francesa porque o Exame Nacional de Ensino Médio colocou na prova um trecho de uma de suas obras, O Segundo Sexo, começando pela frase célebre: “Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. Bastou para os burros levantarem as orelhas e relincharem sua ignorância em volumes constrangedores. Debater com seriedade a burrice nacional é mais urgente do que discutir a crise econômica e o baixo crescimento do país. A burrice está na raiz da crise política mais ampla. A burrice corrompe a vida, a privada e a pública. Dia após dia.

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Me chamem de velha

:: Eliane Brum ::

Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”. Pensei: “roubaram a velhice”. As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos.

Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.

A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a minha morte”.

Na adolescência, eu acalentava a sincera esperança de que algum vampiro achasse o meu pescoço interessante o suficiente para me garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros não existem, embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para dizer que é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas essa é uma obviedade que não nos leva a lugar algum. Que ninguém quer morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para engordar o nosso medo sem que aprendamos nada que valha a pena.

A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado providências para que a minha não seja apartada de mim. A vida é incontrolável e posso morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que amenize a minha dor. Cada um sabe do tamanho de sua tragédia, então esse é apenas o meu querer, sem a pretensão de que a minha escolha seja melhor que a dos outros. Mas eu gostaria de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o morrer será minha última experiência vivida. Acharia frustrante perder esse derradeiro conhecimento sobre a existência humana. Minha última chance de ser curiosa.

Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor. Os eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem.

Não, eu não sou velho. Sou idoso. Não, eu não moro num asilo. Mas numa casa de repouso. Não, eu não estou na velhice. Faço parte da melhor idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque eles soam bem intencionados. São os bonitinhos mas ordinários da língua. O que fazem é arrancar o conteúdo das letras que expressam a nossa vida. Justo quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma.

Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está. Alguém vê um Boris Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique Cardoso como idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.

Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar. Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam as recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver.

Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um livro chamado “O idoso e o mar”? Não. Como idoso o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam…”.

Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição.

Como em 2012 passei a estar mais perto dos 50 do que dos 40, já começo a ouvir sobre mim mesma um outro tipo de bobagem. O tal do “espírito jovem”. Envelhecer não é fácil. Longe disso. Ainda estou me acostumando a ser chamada de senhora sem olhar para os lados para descobrir com quem estão falando. Mas se existe algo bom em envelhecer, como já disse em uma coluna anterior, é o “espírito velho”. Esse é grande.

Vem com toda a trajetória e é cumulativo. Sei muito mais do que sabia antes, o que significa que sei muito menos do que achava que sabia aos 20 e aos 30. Sou consciente de que tudo – fama ou fracasso – é efêmero. Me apavoro bem menos. Não embarco em qualquer papinho mole. Me estatelei de cara no chão um número de vezes suficiente para saber que acabo me levantando. Tento conviver bem com as minhas marcas. Conheço cada vez mais os meus limites e tenho me batido para aceitá-los. Continua doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as minhas perdas. Troco com mais frequência o drama pelo humor nos comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias que me importam e jogo os entulhos fora. Torço para que as pessoas que amo envelheçam porque elas ficam menos vaidosas e mais divertidas. E espero que tenha tempo para envelhecer muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa e tenho umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me livrar porque não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais interessante, intensa e engraçada do que sou hoje.

Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e queremos buscar. É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.

Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão jamais escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.

Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.

Fonte: http://www.contioutra.com -27 ago, 2015 

Sua vida vai mudar se passar um mês inteiro sem reclamar

Mais de mil pessoas se uniram a uma iniciativa que propõe deixar de reclamar
CARLOS CARABAÑA 22 MAR 2015 – 15:36 BRT

Sir Thomas Lipton, um escocês que chegou até onde buscou na vida, em Norfolk, em 1937. / JOHN TOPHAM / TOPFOTO.CO.UK (CORDON PRESS)

Queixa vem do latim, de quassiare, de quassare, que significa golpear violentamente, quebrantar, e expressa uma dor, uma pena, o ressentimento, a inquietação… Um amplo espectro de sensações, mas com um nexo comum: seu caráter negativo. E esse leva ao ódio e, como é bastante sabido, o ódio leva ao lado escuro. Com isso em mente, os amigos Thierry Blancpain e Pieter Pelgrims decidiram estabelecer em fevereiro o projeto Complaint Restraint February. Um mês de 28 dias em que não poderiam reclamar por besteiras.

Os benefícios dessa atitude têm duas caras. Por um lado, aumenta a sensação de felicidade. Por outro, as pessoas se dão conta de que certos conhecidos são muito negativos e te fazem mais infeliz.

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A leveza que procuro

” Pode ser que seja a ocasião. Fim de ano em geral é hora de balanço. Pode ser que seja a idade. Muita gente me diz que, depois de um certo ponto na vida, bate uma profunda necessidade de ser mais leve. Os antroposóficos falam em ciclos de sete anos que vão levando você a trocar a casca e renovar sua personalidade. Os astrólogos explicam que a posição dos planetas justifica o ímpeto. Seja lá o que for, de uns tempos para cá me deu uma vontade louca de me livrar dos cacarecos que a gente carrega sem perceber! E não estou aqui falando apenas do lixo físico acumulado atrás das portas, entupindo gavetas, empilhado em prateleiras. Falo dos apêndices existenciais.

Comecei jogando coisas fora. Doei quase tudo que tinha pendurado no armário e não usava há mais de seis meses. Sapatos e bolsas incluídos na faxina. Depois remexi a papelada. Bilhetes, documentos, fotos antigas, pessoas que não estão mais aqui e que talvez nunca tenham estado comigo de verdade. Não tive vontade de participar da febre consumista natalina. Não quis presentear e isso não tem nada a ver com falta de generosidade. Aí a coisa ficou séria. Olhei o apartamento de soslaio. Será que eu preciso mesmo de tudo isso? Tanto peso acumulado, uma tranqueira danada para administrar. Para quem vive reclamando do tempo, gasto tempo demais com o que não é essencial.

Essencial é um conceito de difícil definição. Varia conforme quem você é. Mas os budistas estão certos quando dizem que o desejo é a fonte de toda a frustração. Não possuir aquilo que se deseja nos traz infelicidade e insegurança. O essencial, portanto, tem a ver com o mínimo. A menor fatia de coisas a carregar e que trarão a você conforto e paz. A leveza que de alguma forma procuro, sei lá por que, é a de uma existência menos pesada e mais condicionada ao prazer – o que quer que seja que dê a cada um de nós prazer.

A dedicação ao prazer dá trabalho. Exige um monte de coisas que não estamos acostumados a entregar facilmente. A primeira, como eu já disse, é tempo. Tempo inclusive para elencar o que significa prazer individual e que não tem nada a ver com aquilo que se vende todos os dias em tantas propagandas em tantas mídias. (Nada contra compras, apenas um ligeiro bode com o excesso. O dispensável teria me poupado não apenas dinheiro. Teria me economizado energia fundamental de vida. Aquilo que ultrapassa o necessário faz você ficar pesado. Como se arrastasse correntes por aí. Estou me livrando das assombrações.)

Estou procurando o prazer. Por trás daquilo que posso decidir ter quero encontrar o que me faz bem ter. Ou não ter. Produzir me dá prazer. A pressa na produção me rouba o mesmo prazer. Viajar me dá muito prazer. Mais pela viagem que pelo destino. O outro me dá prazer. Pela descoberta, pela troca, pelas diferenças. O contraditório me dá prazer. Tudo igual me tira. Gostar de mim me dá prazer. Esperar que o outro também goste me tira. O essencial está aqui comigo. Estou jogando fora o que não é essencialmente meu. O eu das coisas e dos outros. Ficarei bem levinha. Para engolir tudo que de essencial 2014 possa me oferecer. ”

:: por Ana Paula Padrão :: valendo para 2015 =D

Juntar dinheiro ou ser feliz?

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bom senso e senso comum

“Buscar se mover longe de posições extremadas, com até mesmo uma aceitação do senso comum. Respeitar, sem aderência, aos princípios medianos que norteiam a vida social do lugar onde se vive. Como o conhecimento absoluto nunca chega, a moral provisória, sustentada no bom senso, acaba por se mostrar toda a moral que podemos obter. Vivemos na base do ‘enquanto isso’.”

http://notaalta.espm.br/fala-professor/bom-senso-e-senso-comum/

21 fotos que irão restaurar sua fé na humanidade

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